Cercamento em rodovias reduz atropelamentos de animais, comprovam estudos

Publicado em 17 de outubro de 2022

O Brasil tem mais de 1,7 milhão de quilômetros de rodovias e estradas. Anualmente, mais de 400 milhões de vertebrados silvestres morrem atropelados no país – a maior parte nessas áreas. Especialistas dizem que o cercamento em rodovias pode ser uma solução.

O dado acima é do Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas. “Acreditamos que esse número seja bem maior porque não temos monitoramento em todas as estradas do país”, diz Cecília Bueno, da Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes (REET).

Para conhecer as alternativas e os estudos que estão sendo feitos, leia:

  • Os dados comprovam os atropelamentos
  • O cercamento em rodovias
  • O cercamento em rodovias com telas
  • O atropelamento de outros mamíferos

Os dados comprovam os atropelamentos

O fácil acesso das pessoas e dos animais às pistas é um dos motivos de preocupação. Afinal, isso representa milhares de mortes todos os anos. 

Por um lado, o Código de Trânsito Brasileiro permite esse trânsito de automóveis, pessoas e animais. Por outro lado, com a finalidade de evitar os acidentes, os especialistas recomendam o uso de proteções.

O foco desse conteúdo não é dizer ou contradizer as medidas que existem – menos ainda o Código de Trânsito Brasileiro. Porém, vale a pena observarmos os padrões de segurança nas rodovias que são comuns em países de primeiro mundo.

Uma pesquisa da Escola Superior de Agricultura, da Universidade de São Paulo, mostrou que 39 mil mamíferos silvestres são atropelados por ano nas rodovias de São Paulo. Isso acarreta mais de 3 mil acidentes e um prejuízo superior a R$ 56 milhões.

O Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia das Estradas, que fica na Universidade Federal de Lavras (MG), diz que são mais de 2 milhões de animais silvestres de médio e grande porte atropelados nas estradas do país todo.

Sejam as mortes de animais de grande ou pequeno porte, o fato é que temos situações que não devem ser desprezadas. A solução pode ser mais simples do que parece: o cercamento em rodovias.

O cercamento em rodovias

Adriano Murgel Branco é um especialista que concorda com isso. “A colocação de cercas ou alambrados nas pistas não oferece qualquer dificuldade técnica. […] Evita acidentes leves ou graves que representam, certamente, custos maiores do que a implementação”.

Que as telas podem ser soluções ficou claro. Mas, será que existem alternativas? O que já foi estudado sobre o assunto? Fomos atrás dessas perguntas e encontramos uma Norma que merece a sua atenção por ter 3 respostas. Confira abaixo.

A Norma DNIT 077/2006

A Diretoria de Planejamento e Pesquisa criou uma Norma que visa servir de documento oficial para que se crie métodos e estratégias para proteger a fauna que circula em corredores ecológicos interceptados pelas rodovias. É a Norma DNIT 077/2006.

DNIT é o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

E como resultado dos estudos feitos para mitigar os atropelamentos dos animais, a Norma traz 3 possibilidades de soluções. Confira quais são elas.

1 – Cerca Viva

É um tipo de cerca que delimita a faixa de domínio da rodovia ou o corredor ecológico. Ela deve ser constituída pelo plantio de espécies arbustivas – desde que resistentes ao impacto de animais – “podendo vir a funcionar como quebra vento ou corta fogo”.

2 – Cerca de Telas

Outra opção são as cercas de telas de arame galvanizado. Elas delimitam o território, impedindo a passagem de pessoas ou de animais. Elas precisam estar associadas a placas de concreto ou outros materiais. O dimensionamento da tela depende das espécies.

3 – Corredores Ecológicos

O DNIT também menciona a ideia do corredor ecológico, que é o caminho que os animais percorrem em busca de subsistência. Um exemplo clássico vem das matas ciliares dos rios consagrados para a trilha da fauna.

A Norma do DNIT está disponível na internet.

O que dizem outros órgãos

Inclusive, outros órgãos públicos concordam com as ideias. É o caso da Defesa Agropecuária do Governo do Estado de São Paulo. No fim de 2021, ele afirmou que “há soluções inspiradas em rodovias da Europa e Estados Unidos”.

E concordaram com as 3 alternativas citadas acima: “É possível reter os bichos por meio de instalação de cercas, construção de passagens subterrâneas para os animais ou levantando pontes sobre o asfalto”.

Agora, será que apesar de termos opções para solucionar o problema, o resultado é mesmo real? É nessa hora que encontramos outra fonte confiável. Dessa vez, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Vamos mostrar abaixo.

O cercamento em rodovias com telas

A opção de cercar as rodovias com telas foi estudada pela Rosane Nauderer, que fez um trabalho de pós-graduação em nível de mestrado na FURG.

Para trazer informações mais realistas, ela avaliou o telamento nas margens da rodovia BR 471 e viu a redução de atropelamentos de capivaras na estação ecológica do TAIM, no Rio Grande do Sul.

O começo do estudo dela partiu de informações de 1998, quando foi criado o Sistema de Proteção à Fauna. A partir de 2010, iniciou-se um trabalho de monitoramento para avaliar os impactos desse mecanismo.

Então, entre 2010 e 2013 o resultado que está na pesquisa dela mostra: “houve um decréscimo significativo nas taxas e o telamento das margens se mostrou efetivo para a redução dos atropelamentos de capivaras”.  

O atropelamento de outros mamíferos

Daniel Figueiredo Ramalho é outro profissional que fez um estudo importante nessa área. O biólogo da Universidade de Brasileira focou nos morcegos do Cerrado. Por lá há mais de uma centena de espécies deste vertebrado.

Em 2021, ele publicou um artigo que dizia que mais de 4,4 mil morcegos morreram atropelados em um período de 5 anos em estradas do Distrito Federal. Daniel fez um monitoramento em estradas e rodovias, como próximo ao Parque Nacional.

Além das capivaras e dos morcegos, o Observatório de Imprensa de Avistamentos e Ataques de Onças, que é da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), afirma que mais de 90 onças são atropeladas por ano no Brasil. Do total, 40% aconteceram no Sudeste.

Rogério Fonseca é doutor em ecologia da Ufam e diz que os felinos saem das florestas e se deparam com estradas que não foram criadas para garantir a proteção à fauna.A partir disso, a gente finaliza o conteúdo com a opinião de Fernanda Abra, que é da Via Fauna. Ela diz: “O Brasil é o país com mais biodiversidade e tem a 4ª maior malha rodoviária. Precisa mudar a forma como planeja, instala e opera as rodovias”.